Mensagem 116
 
     
 

Paris, 5 de Março de 2007

 
     
 

Linguagem: Um obstáculo à compreensão na consciência interna não-dual, mas
um elemento essencial para a construção de ideias no campo intelectual externo.


Rabindra Nath Tagore, um poeta sábio de Bengala, escreveu para cima de seis mil
profundas canções; mas, no último estádio da sua vida, lamentou o facto de não ser
capaz de escrever aquela canção que muitas vezes estava vibrando, vigorosamente,
dentro do seu ser!
Fragmentação fictícia entre o observador e o que é observado, entre o pensador e o
pensamento, entre o controlador e o que é controlado, o “Eu”, mais a sua informação e
as suas escolhas psicológicas, enreda as comunicações que ocorrem na área limitada da
linguagem.
Mahatma Gandhi designou a sua autobiografia de “ experiências com verdade” e não
“experiência da verdade”, como habitualmente é proclamado pelos professores
apelidados de “religiosos” e de “espirituais”. A sabedoria do Gandhi revela um
grandioso significado. Uma verdade fortemente reveladora destrói a estrutura da
experiência dos resíduos e registos psicológicos, extermina a dicotomia entre
experimentador e experienciado e faz evaporar os limites da experiência.
As escrituras sagradas tornaram-se um campo fecundo para os sistemas de crenças,
fanatismos e batalhas; porque a linguagem, que é tão útil no mundo dualista externo, é
totalmente inútil para gerar genuína compreensão no ser interior. Os intérpretes das
escrituras começaram a gerar a confusão com os seus embustes, imposturas e hipocrisia.
O conhecimento obtido de outros, no mundo técnico, pode ser transmitido do professor
para os alunos através da linguagem, formulando conceitos e ideias sem grande
dificuldade. Mas como é que o conhecimento, a mutação nas células do cérebro, a fusão
de fragmentações na consciência, o fogo da compreensão podem ser transmitidos?
Embora o professor possa falar horas e horas, diariamente, a fim de partilhar a alegria
da compreensão, com todo o amor e entusiasmo, ele continua no entanto a usar a
linguagem da dualidade, originando ideias em vez de discernimento, conceitos e
conclusões em vez de compreensão, formulação de conhecimento em vez de libertação
do que se conhece. Haverá algum remédio?
Sim, há! “Praanipaatena, Pariprashnena, Sevayaa (Bhagawat Gita IV/34)”!
Reverenciando, questionando inteligentemente, escutando repetidamente e cuidando de
todo o coração. É assim que um discípulo pode receber a mudança radical do professor,
através do processo de indução como acontece num campo electromagnético. Esta
profunda sugestão antiga da Inteligência Universal (Krishna) tem sido muito mal usada
pelos “Gurus” do mercado espiritual que exploram os discípulos confusos através da
subserviência e governam os seus “ashrams” como campos de concentração.
O “Eu”, que está na sala de controlo do nosso cérebro, é uma ilusão. A compreensão
disto oferece uma base mais sã para a moralidade, do que os conceitos de “alma” e de
“Deus”, impostos e provenientes de outros. Por amor de Deus, por favor, compreendam
a vasta consciência humana comum. Não há, em lugar algum, qualquer “Eu” separado,
excepto como ponto de referência, por razões práticas. Isto capacitar-nos-á para
reconhecermos as necessidades básicas e os interesses de todos os seres humanos sem
sermos egoístas. Esta ausência de egoísmo é que tem de ser o cerne da moralidade – e
não as garantias morais apregoadas por padres e políticos sob a bandeira de Deus, o que
é a sua derradeira ganância, religião que é máfia e nacionalismo que é tribalismo. A
doutrina da “vida que há-de vir” desvalorizou a vida neste bela terra e tornou os
humanos disponíveis para todas as espécies de perversões e paranóias. Cada momento
da consciência é uma dádiva preciosa. Vivam-no em profundo estado de não-divisão e
não em disputas despropositadas.
A recusa da moralidade social, religiosa, industrial e comercial não vem da esperteza do
intelecto e do seu pensamento. É um escapar efectivo do padrão dessa moralidade que é
imoral. Ir além deste padrão não é um acto do pensamento através da sua linguagem
enganadora, mas um acto de Inteligência pela Vida.
Uma vida verdadeiramente religiosa não está dependente de qualquer sistema de crença,
tal como não tem qualquer amanhã, nem qualquer expectativa. A expectativa destrói a
energia da compreensão. A “condição-do-eu”(1) deve morrer naturalmente e sem
qualquer esforço. A vida realmente religiosa e a sua inteligência começam nesta morte
única!
O vosso deus é falso, pois é meramente o vosso medo de encarar a realidade do “Eu”!
O vosso deus é uma mentira, pois mantém-vos angustiados na solidão do “Eu”!
O vosso deus é artificial, pois suporta a auto-sustentada separação na vossa consciência
como “Eu”!
A vossa meditação é apenas batalhar com pensamentos, tentando dar-lhes forma através
de séries de outros pensamentos!
Sereis capazes de acordar para todos estes factos sem qualquer formulação “intelectual”
através da linguagem?


JAY DAKSHINAMURTI que podia ensinar sem verbalização.

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(1) “I-ness”: estado, modo de ser, natureza do eu.